sábado, 1 de fevereiro de 2014

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Intolerante à auto-estima

    Tomei um café e sinto-me mais desperto, passei uma noite de merda, até equacionei ficar hoje por casa, mas a minha mãe está de folga e foi-me chatear a cabeça para me levantar. Odeio quando ligam a TV a alto som, na procura em me despertarem, odeio acordar com sons artificiais, com gritaria despropositada. E é uma falta de respeito, quando refiro que acordar assim me faz mal, me entorpece a cabeça e me deixa furioso. Mas queria mesmo ficar em casa, porque sinto-me um idiota; adoraria ser um indivíduo menos carente e mais verdadeiro nos meus sentimentos. Um indivíduo pah! Há vezes em que, quando alguém se torna importante para mim, possuo o receio de falhar e torno-me bastante desigual no meu comportamento, muito rígido. Sou um anormal, um assassino deficiente e às vezes cheiro mal do rabo.

      No fim-de-semana vou caminhar, devia ir, para libertar estas energias retraídas, e dar peidos enquanto marcho, defecar no canteiro da vizinha. Há sempre um maior sentimento de falta em mim em cada vez que estou melhor, hei-de, porventura, ganhar o Euromilhões e começar a roubar. Porque funciono numa ordem de contrários.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Xutos e Pontapés

    Há um ritual que as pessoas sem bom senso tomam, servir goles de esperança ou servir de prejuízo a sua melhor força. Eu procuro combater as minhas intenções de combate, procuro deixar a minha raiva na gaiola e não dar alpista à raiva, deixa-la morrer assim, sem água nem carinho. Deixar a raiva enciumar-se dos que, fora da gaiola, andam com a passarada e podem ir livremente ao bar da faculdade comprar uma sandes de atum sem ter de pedir esmola. Não posso deixar a raiva voar e se vingar em cocós imaginativos na vida das pessoas sem bom senso.

      Porque quando eu for grande quero ter uma prisão na cave do meu palácio, e hei-de alimentar estes indivíduos, carentes de porrada, de ração para cão e água deslavada nas minhas celas. E quando o indivíduo, que está ali atrás de mim com cara de indivíduo mau para toda a gente, se recusar a comer, eu chuto-lhe o rabo gordo com biqueira de aço que o panisgas jamais usufruirá de enrabamento anal.

domingo, 10 de novembro de 2013

Fazer amor com o algodão doce

    Fiz amor com o algodão doce,
   Fiz amor com o algodão doce,
   Fiz amor com o algodão doce.
   Foi tão certo como estas linhas,
   ou como o número quatorze.

   Fiz amor com o algodão doce,
   e não pensei que assim fosse,
   Ficar com açúcar pelo buço,
   Fiz amor com o algodão doce.

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Esperança, partilha e amor





(a propósito de Babel,
a González Iñarritu.)
 
       






Não te catives - disse o homem;
e havia um pai a abraçar a filha,
vários andares abaixo do céu.
E em ninguém choveu suspeitas
que o amor era no vento
o circular de menor distância.
E havia também uma virgem
que ocupou a transcendência na varanda,
no andar mais perto do céu
onde o pai a abraçava.

Nos homens falavam os punhos
e a voz eram meninos no deserto,
a voz era a sede sem água por perto.
E havia também na areia uma paz
que gritava que o amor era no vento
o circular de menor distância.
E em ninguém deflagrou a chama
da dor da senhora americana,
em ninguém queimou o incenso
de que a humanidade é só um povo.

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

As emoções nunca ganham juízo

    As emoções nunca ganham juízo, e eu sei isso. Sei que matutam entre si, decidindo se bombardeiam a mente ou o coração. As emoções não têm aviso de chegada nem hora de partida, são perfeitas na sua traquinice: de andarem a correr de um lado para o outro, de descerem no escorrega dos delírios do amor. De chegarem tarde e a más horas à casinha da consciência, de me vedarem os olhos de ver.

    As emoções nunca ganham juízo, e eu, por vezes, não sei isso. Por vezes a surpresa da curiosidade basta a um desfoque, o som da voz aquece a vontade de estar mais, de brincar ao pé cozinho novamente, se necessário. E as emoções bailam qual cinderela pelo corpo todo, e as emoções, por vezes, perdem sapatos antes da meia-noite e deixam-nos descalços na escada grande que é a dúvida de nós mesmos.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

No escorrega da singularidade

(às estimadas Vilela e Fernandes)

‘A Avó do Homo Sapiens’


Tenho ganas de te escrever, avó,
Esqueci-me do corta-unhas
Não me lembro onde o punhas,
Sinto-me peludo e vazio sem ti:
Deixaste o teu neto asqueroso,
Gordo, feio e sozinho por aqui!

A minha pança aumenta,
Com a saudade,
Vou tendo calvície,
Com a idade,
E como barras de chocolate!

Tu, leitor, ser humano,
Respeita a sucessão aberrante,
Já fui macaco e tu és estudante,
Continua a minha linhagem adiante!

Estou de olho em ti, indivíduo,
Tenho esperança e acredito que,
Quando chegares à minha idade,
Ainda consigas ver o teu umbigo
E sejas ainda mais bonito.

Tenho ganas de te escrever, avó,
Mas tenho-te bem em mente
Quando me catavas piolhos com o pente,
E me deixavas todo contente:
As cócegas que me fazias,
Nos pés, nas coxas, nas axilas.

domingo, 3 de novembro de 2013

Dissertação da incoerência

(às estimadas Vilela, Raposo, Caetano e Simon)

    A vida é um lugar estranho onde formigas, como eu, carregam o seu amor de mãe, dorso acima, para alimentarem os seus filhos, os irmãos, os amigos, as carências. A vida é um pensamento demasiado para ser pensado. Na rotina das dissertações eu me condeno eloquente, e sacrifico minhas repentinas mágoas por liberdade de sorrir para os abraços. A vida torna-se gaivota de planar pôr-do-sol, e eu quero estar no tempo sem saber, estar no espaço sem prever as idas ou as chegadas. Ser vivo é só a mudança de ser outra coisa qualquer que passa, a casa do crescimento é quem nos ama e abriga. E eu vou abrir as janelas à calma luz da diapasão e manter uma mão aberta para quem quiser ser vida comigo.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Na longínqua caminhada da vingança

    Não tenho escrito, não tenho exercido nenhuma actividade cerebral de excelência nos últimos dias; isto porque me surgiu, em tristeza, uma doença designada como constipação do caralho, que assola grande parte das narinas com ranho verdejante, da garganta com escarretas amarelas e dos olhos avermelhados. A bem ver sou um arco-íris nojento. A minha amiga Mariana diz que eu pareço ter febre. A minha namorada diz que eu pareço ter febre. Eu digo, a ambas, que concordo, mas não vou medir a temperatura, porque acredito que tudo melhora, é uma questão de tempo. 

     O Peña perguntou-me, no outro dia, se eu sabia como se originavam os trovões e eu respondi que devem ser as nuvens a fazerem lutas de almofadas. Eu devo ter apanhado esta constipação do caralho com a chuva. Quando for sênior vou para um lar de idosos e resguardo-me do tempo com mantas de malha. Pela noite roubo as dentaduras às velhas e troco-as pelas minhas meias asquerosas. E haverá, também, um velho tarado que as tentará beijar a todas e sentirá o meu gosto de pés mal lavados na língua. 

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Acerca do futuro e das paixões

    Quero ser uma árvore sempre erecta até que um lenhador, com pelo no peito e manga cava, me venha cortar o tronco. Quero que, entretanto, ele me recite um poema do Valter Hugo Mãe - aquele intitulado coisinhas preciosas para meter no cu. E quero que ele grite de sofrimento na parte em que o pai bate na criança. Quero que ele sinta a dor da pancada durante o processo sangrento e doloroso desse corte rente. E, no fim, quero que ele diga - amor, o amor é fogo que arde sem se ver, é ferida que dói e não se sente, e, se sentes esta ferida aberta, é porque não me amas nem sabes o que é o amor. - e que, no fim, me sorva o sangue coagulado abaixo do ventre, como fazem os velhos sem dentes (com aquele barulho).

       Quero ser o sol sempre presente e dar a volta ao mundo todos os dias, até que um meteoro se abata contra mim e eu expluda de raiva perante a carbonização putrefacta da espécie humana. Quero que, entretanto, alguém se esteja masturbando e que fique, assim preservado, durante a combustão, para que formas de vida posteriores se acerquem da sua última nítida ação de vida e que, também, seja ela a única salvação da espécie humana, futuramente utilizada e estudada para compreensão e análise das atitudes e vivências da nossa espécie.

domingo, 20 de outubro de 2013

No fogo dos prazeres e labaredas

          Em pé, diante do muro, mixei. Estava frio, mas eu tinha um casaco vermelho - como o coração. A polícia passou ao fundo, mas não reparou no meu pirilau excitado nem na corrente de urina que circulava no chão abaixo de mim, e nos meus sapatos, oh quão cheiro nauseabundo me acerca! 
           Sim, vinha de uma longa rotina aguentando a insatisfação de conter o meu xixi. E, quando finalmente me urinei de prazer, já era noite e eu regressava a casa. O frio gelava as minhas mãos nuas, mas, naquele momento, ali, eu e o meu pirilau nos aquecemos de um odor quente e extasiado.
        Quisera eu cercar as paredes do mundo com esta simpatia gloriosa com que pintei o muro branco! Quisera eu dar palavra a todos os muros brancos, que passam a noite ao relento, e ouvir deles a palavra de júbilo de se poderem aquentar.

sábado, 19 de outubro de 2013

Ao ócio e outros amigos

Tenho quase um pedaço de fezes a baterem-me à porta anal, a pedirem-me, já com alguma insistência, que as deixe sair, que as sufoque em água sanitária, em líquido nojento de aglomerado de porcalhise familiar - e torna-se já dolorosa esta insistência egocêntrica das fezes a quererem sair, mostrarem-se, sujarem-me os boxers com um castanho mal-cheiroso. Eu contenho-me e juro como tudo que não vou desistir. Vejo, nesta situação, uma intriga, um obstáculo ao meu sucesso: eu, que estava por aqui, atento, observando material escolar, e, que agora, inesperadamente, me confronto com este duelo. Não poia embirrante, não te permito surgir assim, conforme te convém, não permito que faças do meu esfincter o teu lugar de prazer, da minha dolorosa dor! Ide, que não me irei desleixar perante a tua obstinação!

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Germinando no teu ventre

Levantei-me, levemente, e pelo chão voei na minha rotina matinal. Por vezes surgem-me asas nos pés e realizo ações rotineiras mecanicamente. A manhã cinzenta parece esconder algo, há vezes em que julgo estar ela embrulhada de chuva. É agradável esta carência de que o dia será proveitoso. E há que dar oportunidade, também, a estes dias mais escuros para que os pedófilos, escondidos nas traseiras da escola primária, consigam raptar algum menino sem a hipótese de serem vistos.

A minha namorada parece estar a ter um dia difícil, ainda não consegui falar com ela. Por enquanto cá me vou sentindo nostálgico, com esta chuva, enquanto leio Cesário Verde. Olho para a janela e o dia parece-me triste, parece querer estender-me a mão e convidar-me para ir brincar no jardim. O dia de hoje parece que foi abandonado, não há movimento nem ninguém pelas ruas. Parece que o tempo se estagnou e que só voltaremos a viver amanhã.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Nostálgico amor eterno

O sol espanca-me a cara, derrete-me a visão em bolinhas pretas. Eu levo a mão ao rosto, limpo o sebo caloroso e sinto-me tonto. E ralho com o sol, digo-lhe que ele não pode esquentar-me assim a calvície, assar-me os piolhos sem ai nem ui. Ele deve encontrar em mim alguma graça, no meu desagrado, porque sorri e sorri quente e mais quente até eu ficar com os sovacos encharcados, até humedecer os pés e ensopar a virilha.

Hoje é o aniversário do meu pai. Sempre gostei dele por ter contaminado a minha mãe com o seu sémen e me permitir evoluir para a pessoa bela que sou hoje, sem me ter dado um tiro na testa ou um pontapé no crânio que me desfigurasse as divinas proporções do rosto. Quando tiver a sua idade espero ter um filho como eu. E hei-de molestá-lo como me faço todas as noites.

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Filosófica a meio da tarde

(ao meu braço amputado)

Achegaste em sombras de três anos e eu, quando te miro, esqueço-me que abandonas-te a tua presença na rua (junto da fumaça barata). Emprego-te honestidade de cair homem pássaro de cume e, quando te dou a mão - ossos poeira - agarro a tua sombra vazia (assombrada de carência). Esqueço-me que a filosófica a meio da tarde tombou em dominó e que o teu chão aberto é afundado de mimos. Saio cabeceira de infortúnios indisposta, teu abraço mais ao canto do pó: numa cave desarrumada de um edifício alto de Presentes. Filosófica, a meio da tarde, canta o meu rouxinol outras cantigas.