Quero ser uma árvore sempre erecta até que um lenhador, com pelo no peito e manga cava, me venha cortar o tronco. Quero que, entretanto, ele me recite um poema do Valter Hugo Mãe - aquele intitulado coisinhas preciosas para meter no cu. E quero que ele grite de sofrimento na parte em que o pai bate na criança. Quero que ele sinta a dor da pancada durante o processo sangrento e doloroso desse corte rente. E, no fim, quero que ele diga - amor, o amor é fogo que arde sem se ver, é ferida que dói e não se sente, e, se sentes esta ferida aberta, é porque não me amas nem sabes o que é o amor. - e que, no fim, me sorva o sangue coagulado abaixo do ventre, como fazem os velhos sem dentes (com aquele barulho).
Quero ser o sol sempre presente e dar a volta ao mundo todos os dias, até que um meteoro se abata contra mim e eu expluda de raiva perante a carbonização putrefacta da espécie humana. Quero que, entretanto, alguém se esteja masturbando e que fique, assim preservado, durante a combustão, para que formas de vida posteriores se acerquem da sua última nítida ação de vida e que, também, seja ela a única salvação da espécie humana, futuramente utilizada e estudada para compreensão e análise das atitudes e vivências da nossa espécie.