segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Na longínqua caminhada da vingança

    Não tenho escrito, não tenho exercido nenhuma actividade cerebral de excelência nos últimos dias; isto porque me surgiu, em tristeza, uma doença designada como constipação do caralho, que assola grande parte das narinas com ranho verdejante, da garganta com escarretas amarelas e dos olhos avermelhados. A bem ver sou um arco-íris nojento. A minha amiga Mariana diz que eu pareço ter febre. A minha namorada diz que eu pareço ter febre. Eu digo, a ambas, que concordo, mas não vou medir a temperatura, porque acredito que tudo melhora, é uma questão de tempo. 

     O Peña perguntou-me, no outro dia, se eu sabia como se originavam os trovões e eu respondi que devem ser as nuvens a fazerem lutas de almofadas. Eu devo ter apanhado esta constipação do caralho com a chuva. Quando for sênior vou para um lar de idosos e resguardo-me do tempo com mantas de malha. Pela noite roubo as dentaduras às velhas e troco-as pelas minhas meias asquerosas. E haverá, também, um velho tarado que as tentará beijar a todas e sentirá o meu gosto de pés mal lavados na língua. 

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Acerca do futuro e das paixões

    Quero ser uma árvore sempre erecta até que um lenhador, com pelo no peito e manga cava, me venha cortar o tronco. Quero que, entretanto, ele me recite um poema do Valter Hugo Mãe - aquele intitulado coisinhas preciosas para meter no cu. E quero que ele grite de sofrimento na parte em que o pai bate na criança. Quero que ele sinta a dor da pancada durante o processo sangrento e doloroso desse corte rente. E, no fim, quero que ele diga - amor, o amor é fogo que arde sem se ver, é ferida que dói e não se sente, e, se sentes esta ferida aberta, é porque não me amas nem sabes o que é o amor. - e que, no fim, me sorva o sangue coagulado abaixo do ventre, como fazem os velhos sem dentes (com aquele barulho).

       Quero ser o sol sempre presente e dar a volta ao mundo todos os dias, até que um meteoro se abata contra mim e eu expluda de raiva perante a carbonização putrefacta da espécie humana. Quero que, entretanto, alguém se esteja masturbando e que fique, assim preservado, durante a combustão, para que formas de vida posteriores se acerquem da sua última nítida ação de vida e que, também, seja ela a única salvação da espécie humana, futuramente utilizada e estudada para compreensão e análise das atitudes e vivências da nossa espécie.

domingo, 20 de outubro de 2013

No fogo dos prazeres e labaredas

          Em pé, diante do muro, mixei. Estava frio, mas eu tinha um casaco vermelho - como o coração. A polícia passou ao fundo, mas não reparou no meu pirilau excitado nem na corrente de urina que circulava no chão abaixo de mim, e nos meus sapatos, oh quão cheiro nauseabundo me acerca! 
           Sim, vinha de uma longa rotina aguentando a insatisfação de conter o meu xixi. E, quando finalmente me urinei de prazer, já era noite e eu regressava a casa. O frio gelava as minhas mãos nuas, mas, naquele momento, ali, eu e o meu pirilau nos aquecemos de um odor quente e extasiado.
        Quisera eu cercar as paredes do mundo com esta simpatia gloriosa com que pintei o muro branco! Quisera eu dar palavra a todos os muros brancos, que passam a noite ao relento, e ouvir deles a palavra de júbilo de se poderem aquentar.

sábado, 19 de outubro de 2013

Ao ócio e outros amigos

Tenho quase um pedaço de fezes a baterem-me à porta anal, a pedirem-me, já com alguma insistência, que as deixe sair, que as sufoque em água sanitária, em líquido nojento de aglomerado de porcalhise familiar - e torna-se já dolorosa esta insistência egocêntrica das fezes a quererem sair, mostrarem-se, sujarem-me os boxers com um castanho mal-cheiroso. Eu contenho-me e juro como tudo que não vou desistir. Vejo, nesta situação, uma intriga, um obstáculo ao meu sucesso: eu, que estava por aqui, atento, observando material escolar, e, que agora, inesperadamente, me confronto com este duelo. Não poia embirrante, não te permito surgir assim, conforme te convém, não permito que faças do meu esfincter o teu lugar de prazer, da minha dolorosa dor! Ide, que não me irei desleixar perante a tua obstinação!

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Germinando no teu ventre

Levantei-me, levemente, e pelo chão voei na minha rotina matinal. Por vezes surgem-me asas nos pés e realizo ações rotineiras mecanicamente. A manhã cinzenta parece esconder algo, há vezes em que julgo estar ela embrulhada de chuva. É agradável esta carência de que o dia será proveitoso. E há que dar oportunidade, também, a estes dias mais escuros para que os pedófilos, escondidos nas traseiras da escola primária, consigam raptar algum menino sem a hipótese de serem vistos.

A minha namorada parece estar a ter um dia difícil, ainda não consegui falar com ela. Por enquanto cá me vou sentindo nostálgico, com esta chuva, enquanto leio Cesário Verde. Olho para a janela e o dia parece-me triste, parece querer estender-me a mão e convidar-me para ir brincar no jardim. O dia de hoje parece que foi abandonado, não há movimento nem ninguém pelas ruas. Parece que o tempo se estagnou e que só voltaremos a viver amanhã.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Nostálgico amor eterno

O sol espanca-me a cara, derrete-me a visão em bolinhas pretas. Eu levo a mão ao rosto, limpo o sebo caloroso e sinto-me tonto. E ralho com o sol, digo-lhe que ele não pode esquentar-me assim a calvície, assar-me os piolhos sem ai nem ui. Ele deve encontrar em mim alguma graça, no meu desagrado, porque sorri e sorri quente e mais quente até eu ficar com os sovacos encharcados, até humedecer os pés e ensopar a virilha.

Hoje é o aniversário do meu pai. Sempre gostei dele por ter contaminado a minha mãe com o seu sémen e me permitir evoluir para a pessoa bela que sou hoje, sem me ter dado um tiro na testa ou um pontapé no crânio que me desfigurasse as divinas proporções do rosto. Quando tiver a sua idade espero ter um filho como eu. E hei-de molestá-lo como me faço todas as noites.

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Filosófica a meio da tarde

(ao meu braço amputado)

Achegaste em sombras de três anos e eu, quando te miro, esqueço-me que abandonas-te a tua presença na rua (junto da fumaça barata). Emprego-te honestidade de cair homem pássaro de cume e, quando te dou a mão - ossos poeira - agarro a tua sombra vazia (assombrada de carência). Esqueço-me que a filosófica a meio da tarde tombou em dominó e que o teu chão aberto é afundado de mimos. Saio cabeceira de infortúnios indisposta, teu abraço mais ao canto do pó: numa cave desarrumada de um edifício alto de Presentes. Filosófica, a meio da tarde, canta o meu rouxinol outras cantigas. 

Taciturno e ingénuo nascer de sol

Hoje estou muito sonolento, nem me recordo de ter acordado, saí de casa para passear as minhas olheiras, dar-lhes um bocadinho de sol e deixar que elas urinem na relva, como fazem os cães. Há dias assim, em que eu olho ternurento para algumas ações da natureza, mas não pareço nada ternurento, as pessoas ficam com medo de mim, pensam que as vou roubar o coração e fritá-lo com ovos mexidos. Ando pela faculdade a pé, ainda não tirei a carta de condução, mas assim que tiver oportunidade entro de mota aqui para dentro, quero ser insólito: quero escamar pernas de frango, quero vislumbrar o meu prepúcio a atingir proporções avermelhadas depois de tanto prazer. Estou no meu horário de almoço, queria almoçar com o João mas ele não me responde, e ando tão pobre que perdi a fome. Amanhã será dia 16 e o meu pai vai fazer anos brevemente e eu já me esqueci outra vez. Talvez um dia eu tenha uma memória de elefante, daqueles com trombas grandes, que decerto se satisfarão a si próprios com o nariz na pichota.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Na quentura dos quotidianos

Hoje acordei de manhã e cocei a virilha, só me apetecia dormir. A minha mãe hoje esteve por casa, mas foi fazer compras ou o caralho e eu assim fiquei sozinho e dormi mais um pouco. Quando acordei novamente cocei a virilha outra vez e pensei na minha namorada. Depois, fui lavar a virilha e o rabinho, deixei de ter comichão, mas continuei a pensar nela. Quando apanhei o comboio os velhos ainda respiravam nos assentos. Optei por passar a viagem a ler uma obra poética do Valter Hugo Mãe, até que cheguei a uma história sua onde figurava uma personagem com o nome Mariana. Relatei o sucedido à minha amiga Mariana, ela ligou-me e disse que andava à procura de horários de transportes na Parede. Durante todo este período não cocei mais a virilha. Neste momento a minha namorada está vindo ter comigo, porque comemoramos um ano de namoro. Dia 30 ela faz anos e nós vamos produzir gémeos para, quando um deles se avariar ou tiver sarampo ou se meter na droga, sempre nos restará o outro. Que se será doutor. Quando eu for morto quero ser cremado, mas que me cortem a pilinha antes e a emoldurem. Todos os dias, quem me quiser bem, irá olhar para ela antes de se deitar e fazer dela o seu deus, rezando.