terça-feira, 19 de novembro de 2013

Intolerante à auto-estima

    Tomei um café e sinto-me mais desperto, passei uma noite de merda, até equacionei ficar hoje por casa, mas a minha mãe está de folga e foi-me chatear a cabeça para me levantar. Odeio quando ligam a TV a alto som, na procura em me despertarem, odeio acordar com sons artificiais, com gritaria despropositada. E é uma falta de respeito, quando refiro que acordar assim me faz mal, me entorpece a cabeça e me deixa furioso. Mas queria mesmo ficar em casa, porque sinto-me um idiota; adoraria ser um indivíduo menos carente e mais verdadeiro nos meus sentimentos. Um indivíduo pah! Há vezes em que, quando alguém se torna importante para mim, possuo o receio de falhar e torno-me bastante desigual no meu comportamento, muito rígido. Sou um anormal, um assassino deficiente e às vezes cheiro mal do rabo.

      No fim-de-semana vou caminhar, devia ir, para libertar estas energias retraídas, e dar peidos enquanto marcho, defecar no canteiro da vizinha. Há sempre um maior sentimento de falta em mim em cada vez que estou melhor, hei-de, porventura, ganhar o Euromilhões e começar a roubar. Porque funciono numa ordem de contrários.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Xutos e Pontapés

    Há um ritual que as pessoas sem bom senso tomam, servir goles de esperança ou servir de prejuízo a sua melhor força. Eu procuro combater as minhas intenções de combate, procuro deixar a minha raiva na gaiola e não dar alpista à raiva, deixa-la morrer assim, sem água nem carinho. Deixar a raiva enciumar-se dos que, fora da gaiola, andam com a passarada e podem ir livremente ao bar da faculdade comprar uma sandes de atum sem ter de pedir esmola. Não posso deixar a raiva voar e se vingar em cocós imaginativos na vida das pessoas sem bom senso.

      Porque quando eu for grande quero ter uma prisão na cave do meu palácio, e hei-de alimentar estes indivíduos, carentes de porrada, de ração para cão e água deslavada nas minhas celas. E quando o indivíduo, que está ali atrás de mim com cara de indivíduo mau para toda a gente, se recusar a comer, eu chuto-lhe o rabo gordo com biqueira de aço que o panisgas jamais usufruirá de enrabamento anal.

domingo, 10 de novembro de 2013

Fazer amor com o algodão doce

    Fiz amor com o algodão doce,
   Fiz amor com o algodão doce,
   Fiz amor com o algodão doce.
   Foi tão certo como estas linhas,
   ou como o número quatorze.

   Fiz amor com o algodão doce,
   e não pensei que assim fosse,
   Ficar com açúcar pelo buço,
   Fiz amor com o algodão doce.

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Esperança, partilha e amor





(a propósito de Babel,
a González Iñarritu.)
 
       






Não te catives - disse o homem;
e havia um pai a abraçar a filha,
vários andares abaixo do céu.
E em ninguém choveu suspeitas
que o amor era no vento
o circular de menor distância.
E havia também uma virgem
que ocupou a transcendência na varanda,
no andar mais perto do céu
onde o pai a abraçava.

Nos homens falavam os punhos
e a voz eram meninos no deserto,
a voz era a sede sem água por perto.
E havia também na areia uma paz
que gritava que o amor era no vento
o circular de menor distância.
E em ninguém deflagrou a chama
da dor da senhora americana,
em ninguém queimou o incenso
de que a humanidade é só um povo.

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

As emoções nunca ganham juízo

    As emoções nunca ganham juízo, e eu sei isso. Sei que matutam entre si, decidindo se bombardeiam a mente ou o coração. As emoções não têm aviso de chegada nem hora de partida, são perfeitas na sua traquinice: de andarem a correr de um lado para o outro, de descerem no escorrega dos delírios do amor. De chegarem tarde e a más horas à casinha da consciência, de me vedarem os olhos de ver.

    As emoções nunca ganham juízo, e eu, por vezes, não sei isso. Por vezes a surpresa da curiosidade basta a um desfoque, o som da voz aquece a vontade de estar mais, de brincar ao pé cozinho novamente, se necessário. E as emoções bailam qual cinderela pelo corpo todo, e as emoções, por vezes, perdem sapatos antes da meia-noite e deixam-nos descalços na escada grande que é a dúvida de nós mesmos.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

No escorrega da singularidade

(às estimadas Vilela e Fernandes)

‘A Avó do Homo Sapiens’


Tenho ganas de te escrever, avó,
Esqueci-me do corta-unhas
Não me lembro onde o punhas,
Sinto-me peludo e vazio sem ti:
Deixaste o teu neto asqueroso,
Gordo, feio e sozinho por aqui!

A minha pança aumenta,
Com a saudade,
Vou tendo calvície,
Com a idade,
E como barras de chocolate!

Tu, leitor, ser humano,
Respeita a sucessão aberrante,
Já fui macaco e tu és estudante,
Continua a minha linhagem adiante!

Estou de olho em ti, indivíduo,
Tenho esperança e acredito que,
Quando chegares à minha idade,
Ainda consigas ver o teu umbigo
E sejas ainda mais bonito.

Tenho ganas de te escrever, avó,
Mas tenho-te bem em mente
Quando me catavas piolhos com o pente,
E me deixavas todo contente:
As cócegas que me fazias,
Nos pés, nas coxas, nas axilas.

domingo, 3 de novembro de 2013

Dissertação da incoerência

(às estimadas Vilela, Raposo, Caetano e Simon)

    A vida é um lugar estranho onde formigas, como eu, carregam o seu amor de mãe, dorso acima, para alimentarem os seus filhos, os irmãos, os amigos, as carências. A vida é um pensamento demasiado para ser pensado. Na rotina das dissertações eu me condeno eloquente, e sacrifico minhas repentinas mágoas por liberdade de sorrir para os abraços. A vida torna-se gaivota de planar pôr-do-sol, e eu quero estar no tempo sem saber, estar no espaço sem prever as idas ou as chegadas. Ser vivo é só a mudança de ser outra coisa qualquer que passa, a casa do crescimento é quem nos ama e abriga. E eu vou abrir as janelas à calma luz da diapasão e manter uma mão aberta para quem quiser ser vida comigo.